Mostrando entradas con la etiqueta 1673-1716 – São Luís Maria Grignion de Montfort (França). Mostrar todas las entradas
Mostrando entradas con la etiqueta 1673-1716 – São Luís Maria Grignion de Montfort (França). Mostrar todas las entradas

domingo, 10 de enero de 2016

São Luis Maria Grignon de Montfort - "Os Apóstolos dos Últimos Tempos"

São Luís-Maria Grignion de Montfort
(1673–1716)

Canonizado pelo Pp. Pio XII em 1947






“Os Apóstolos dos Últimos Tempos”
(Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, Nos 55-59)



II. Os Apóstolos dos Últimos Tempos
55. Enfim, Deus quer que sua Mãe seja hoje mais conhecida, mais amada e mais honrada do que nunca. Isso acontecerá, sem dúvida, se os predestinados entrarem, com a graça e a luz do Espírito Santo, na prática interior e perfeita que seguidamente lhes descobrirei. Verão então, com tanta claridade quanto a fé lhes permitir, a formosa estrela do mar, e, se obedecerem às suas directivas, chegarão a bom porto apesar das tempestades e dos piratas. Conhecerão as grandezas desta soberana e devotar-se-ão inteiramente ao seu serviço, como Seus súbditos e Seus escravos de amor. Experimentarão as suas doçuras e bondades maternais, e amar-lhe-ão ternamente, como Seus filhos muito queridos. Conhecerão as misericórdias de que Ela é cheia, e sentirão a necessidade que têm do seu socorro. Recorrerão sempre a Ela, em todas as coisas, como sua querida advogada e medianeira junto de Jesus Cristo. Compreenderão que Ela é o meio mais fácil, mais curto, mais perfeito para irem a Jesus, e a Ela se entregarão de corpo e alma, sem reservas, para do mesmo modo pertencerem a Jesus Cristo.

56. Mas quem serão esses servos, escravos e filhos de Maria?
Serão “ministros do Senhor” (Hb 1, 7; Sl 103, 4) que, qual fogo crepitante, levarão a toda parte as chamas do Amor Divino. Serão “setas na mão do Poderoso” (Sl 126, 4), flechas agudas nas mãos poderosas de Maria para trespassarem os seus inimigos. Serão “filhos de Levi” (Ml 3, 3), bem purificados no fogo das grandes tribulações, bem apegados a Deus, que tra- rão o Ouro do Amor em seus corações, o incenso da oração no espírito, e a mirra da mortificação no corpo. Serão por toda parte o “bom odor de Jesus Cristo”: odor de vida para os pobres, os pequenos e os humildes; odor de morte para os grandes, os ricos e orgulhosos mundanos (2 Cor 2, 15-16).

57. Serão “nuvens trovejantes” ( Mc 3, 17; Sl 103, 7), que voarão pelos ares ao menor sopro do Espírito Santo. E, sem se apegarem a coisa alguma, nem se admirarem ou inquietarem, espalharão a chuva da Palavra de Deus e da Vida Eterna. Bradarão contra o pecado, clamarão contra o mundo, fulminarão o demónio e seus adeptos. Atravessarão de lado a lado, para a vida ou para a morte, com a espada de dois gumes da Palavra de Deus (Ef 6, 17; Hb 4, 12), todos aqueles a quem forem enviados da parte do Altíssimo.

58. Serão verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, a quem o Senhor das virtudes dará a palavra e a força para operar maravilhas e arrebatar gloriosos despojos ao inimigo. Dormirão sem ouro nem prata e, o que é mais, sem cuidados, no meio dos outros sacerdotes eclesiásticos e clérigos (Sl 67, 14). Terão, no entanto, as asas prateadas da pomba, para irem, com a recta intenção da glória de Deus e da salvação das almas, aonde o Espírito Santo os chamar. Deixarão após si, nos lugares onde tiverem pregado, o ouro da caridade, que é o cumprimento de toda a Lei (Rm 13, 10).

59. Sabemos, enfim, que serão os verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, que seguirão as pegadas da sua pobreza, humildade, desprezo do mundo e caridade. Ensinarão o estreito caminho de Deus na pura verdade, segundo o Santo Evangelho e não segundo as máximas do mundo, sem se colocar em inquietação nem fazer acepção de pessoas, sem poupar, escutar ou temer nenhum mortal, por poderoso que seja.
Terão nos lábios a espada de dois gumes, que é a Palavra de Deus; trarão aos ombros o estandarte sangrento da Cruz, o crucifixo na mão direita, o Rosário na esquerda, os sagrados nomes de Jesus e Maria no coração, e a modéstia e mortificação de Jesus Cristo em toda a sua conduta. Eis os grandes homens que hão de vir, mas que Maria suscitará por ordem do Altíssimo, para estender o seu Império sobre o dos ímpios, idólatras e maometanos. Quando e como acontecerá isto?... Só Deus o sabe. Quanto a nós, apenas nos compete calar, rezar, suspirar e esperar: “Esperei ansiosamente o Senhor” (Sl 39, 2).





sábado, 17 de enero de 2015

São Luis Maria Grignon de Montfort - "Papel especial de Maria nos Últimos Tempos"

São Luís-Maria Grignion de Montfort
(1673–1716)

Canonizado pelo Pp. Pio XII em 1947
  



Papel Especial de Maria nos Últimos Tempos
(Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, Nos 49-54)




I. Papel Especial de Maria nos Últimos Tempos
49. A salvação do mundo começou por Maria, e é por Ela que se deve consumar. Na primeira vinda de Jesus Cristo, Maria quase não apareceu, a fim de que os homens, ainda pouco instruídos e esclarecidos sobre a pessoa de seu Filho, não se afastassem da verdade, apegando-se muito intensa e grosseiramente a Ela. Sendo a Virgem conhecida, é provável que isso tivesse acontecido por causa dos encantos admiráveis que o Altíssimo lhe tinha concedido, mesmo exteriormente. Tanto assim é que São Dionísio Areopagita deixou escrito que, quando a viu, a teria tomado por uma divindade, —devido aos Seus secretos atractivos e à sua beleza incomparável—, se a fé, em que estava bem confirmado, lhe não tivesse garantido o contrário.
Mas, na segunda vinda de Jesus Cristo, Maria tem de ser conhecida e, por isso, deve ser manifestada pelo Espírito Santo. Por Ela fará Conhecer, Amar e Servir Jesus Cristo, uma vez que já não subsistem as razões que o levaram a ocultar, durante a vida, a sua Esposa, e a revelá-la só muito pouco, desde a pregação do Santo Evangelho.

50. Nestes que são os tempos derradeiros Deus quer, pois, revelar e manifestar Maria, a obra prima das suas mãos.
1º porque Ela se escondeu neste mundo, e se colocou mais abaixo que o pó, em sua humildade profunda, tendo obtido de Deus, dos Seus Apóstolos e Evangelistas, que não fosse manifestada;
2º porque Ela é obra-prima saída das mãos de Deus, tanto na Terra pela graça, como no Céu pela glória. Por isso Deus quer, por meio d’Ela, ser louvado e glorificado sobre a terra pelos viventes;
3º porque é Ela a aurora que precede e anuncia o Sol da Justiça, Jesus Cristo, Maria deve ser conhecida e vista, para que Jesus o seja também;
4º porque sendo Ela o caminho por onde Jesus Cristo veio a nós da primeira vez, haverá de sê-lo ainda quando Ele vier pela segunda, embora de maneira diversa;
5º porque é Maria o meio seguro, a via recta e imaculada para ir a Jesus Cristo e para o encontrar perfeitamente, é por Ela que o devem achar as almas chamadas a brilhar em santidade. Aquele que achar Maria, achará a vida (Pr 8, 35), isto é, encontrará Jesus Cristo, que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14, 6). Mas não a pode achar quem a não procurar; não pode procurá-la quem a não conhecer: pois não se busca nem se deseja um objecto desconhecido. É pois necessário que Maria seja conhecida mais do que nunca, para maior conhecimento e glória da Santíssima Trindade;
6º Maria deve brilhar mais do que nunca em misericórdia, em força e em graça nestes últimos tempos. Em misericórdia, para reconduzir e receber amorosamente os pobres pecadores e extraviados, que se converterão e regressarão à Igreja Católica. Em força, para se opor aos inimigos de Deus, aos idólatras, cismáticos, maometanos, judeus e ímpios endurecidos, que se revoltarão terrivelmente, para seduzir e fazer cair, por meio de promessas e ameaças, todos os que lhes forem contrários. E, finalmente, Ela deve brilhar em graça, para animar e suster os valorosos soldados e fiéis servos de Jesus Cristo, que combaterão pelos Seus interesses;
7º por fim, Maria deve ser terrível para o demónio e seus sequazes, como um exército disposto em linha de batalha (Ct 6, 3.9), principalmente nestes últimos tempos. A razão disso é que o demónio intensifica todos os dias seus esforços e combates, visto saber bem que tem pouco tempo (Ap 12, 12), e muito menos do que nunca, para perder as almas. Suscitará em breve cruéis perseguições, e armará terríveis emboscadas aos servos fiéis e verdadeiros filhos de Maria, pois lhe são precisos mais esforços para vencer estes do que os outros.

51. Estas últimas e cruéis perseguições do demónio aumentarão dia a dia, até vir o Reino do Anticristo. É principalmente a estas que se deve aplicar a primeira e célebre predição e maldição de Deus proferida no Paraíso Terrestre contra a serpente. Vem a propósito explicá-la aqui, para a glória da Santíssima Virgem, salvação dos Seus filhos e confusão do demónio.
Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a d'Ela; Ela te esmagará a cabeça, e tu armarás ciladas ao seu calcanhar” (Gn 3, 15).

52. Deus nunca estabeleceu e formou senão uma única inimizade, mas esta irreconciliável, devendo durar e mesmo aumentar até o fim. É a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o demónio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e satélites de Lúcifer. Deste modo, o inimigo mais terrível que Deus constituiu contra o demónio é Maria, sua Santa Mãe. E Maria, ainda existindo apenas na mente de Deus, foi por Ele dotada, desde o Paraíso Terrestre, de tanto ódio contra este maldito inimigo, tanta diligência em descobrir a malícia desta antiga serpente, tanta força para vencer, aniquilar e esmagar este ímpio orgulhoso, que este a teme, não só mais que a todos os anjos e homens, mas, num certo sentido, mais do que ao próprio Deus. Não é que a ira, o ódio e o poder de Deus não sejam infinitamente superiores aos da Santíssima Virgem, visto as perfeições d'Ela serem limitadas. Mas é que: em primeiro lugar, Satanás, sendo orgulhoso, sofre infinitamente mais em ser vencido e esmagado por uma pequena e humilde serva de Deus, e a humildade desta humilha-o mais que o poder divino; depois, porque Deus conferiu a Maria um tão grande poder sobre os demónios, que eles temem mais um único dos Seus suspiros por alguma alma, que as orações de todos os santos, e uma só das suas ameaças, mais que qualquer outro tormento. Isto foram eles obrigados a confessar muitas vezes, ainda que de má vontade, pela boca dos possessos.

53. O que Lúcifer perdeu por orgulho, ganhou-o Maria pela sua humildade; o que Eva condenou e perdeu pela desobediência, salvou-o Maria obedecendo. Eva, ao obedecer à serpente, perdeu consigo todos os seus filhos e entregou-os ao demónio. Maria, tendo sido perfeitamente fiel a Deus, salvou juntamente consigo todos os Seus filhos e servos, e consagrou-os à Divina Majestade (Santo Ireneu de Lyon).

54. Deus constituiu não somente uma inimizade, mas “inimizades”, não apenas entre Maria e o demónio, mas também entre a descendência da Virgem Santa e a de Satanás. Isto quer dizer que Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demónio: eles não se amam, nem têm qualquer correspondência interior uns com os outros.
Os filhos de Belial (Dt 13, 13), os escravos de Satanás, os amigos do mundo (não há diferença), até hoje perseguiram sempre, e perseguirão mais do que nunca, aqueles que pertencem à Santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú perseguiu Jacob, figuras dos réprobos e dos predestinados. Mas a humilde Maria alcançará sempre a vitória sobre este orgulhoso, e essa vitória será tão grande que chegará a esborrachar-lhe a cabeça, onde reside o seu orgulho. Ela descobrirá sempre a sua malícia de serpente, e porá a descoberto as suas tramas infernais. Dissipará os seus conselhos e protegerá, até o fim dos tempos, os Seus servos fiéis contra aquelas garras cruéis.
Mas o poder de Maria sobre todos os demónios brilhará particularmente nos últimos tempos, em que Satanás armará ciladas contra o seu calcanhar, ou seja, contra os humildes escravos e pobres filhos, que Ela suscitará para lhe fazer guerra. Eles serão pequenos e pobres na opinião do mundo, humilhados perante todos, calcados e perseguidos como o calcanhar o é em relação aos outros membros do corpo. Mas, em troca, serão ricos da graça de Deus, que Maria lhes distribuirá abundantemente. Serão grandes e de elevada santidade diante de Deus, e superiores a toda criatura pelo seu zelo ardente. Estarão tão fortemente apoiados no socorro divino que esmagarão, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, a cabeça do demónio, fazendo triunfar Jesus Cristo.





miércoles, 17 de septiembre de 2014

São Luís-Maria Grignion de Montfort e o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem


São Luís-Maria Grignion de Montfort
(1673–1716)

Canonizado pelo Pp. Pio XII em 1947    


O Tratado da Verdadeira Devoção
à Santíssima Virgem


A estátua de Sao Luís-Maria está agora colocada no nicho superior da Nave Sul da Basílica de Sao Pedro no Vaticano.

Para esta brevíssima apresentação de São Luís Maria, acudo às palavras de São João Paulo II, a 21 de Junho de 1997, na sua carta dirigida à Família Monfortina, por ocasião do 50º aniversario da canonização de São Luís-María Grignion de Montfort.
O Santo Padre anuncia a sua felicidade na acção de graças ao Senhor «pela grande irradiação deste santo missionário, cujo apostolado foi nutrido por uma profunda vida de oração, uma inabalável fé em Deus Trindade e uma intensa devoção à Santíssima Virgem Maria, Mãe do Redentor.» E continua: «Pobre entre os pobres, profundamente integrado na Igreja apesar das incompreensões que encontrou, São Luís-Maria tomou por lema estas simples palavras: “Só Deus”. Ele cantava: “Só Deus é a minha ternura, só Deus é o meu sustentáculo, só Deus é todo o meu bem, a minha vida e a minha riqueza” (Cântico 55, 11). Nele, o amor por Deus era total. Era com Deus e por Deus que ia ao encontro dos outros e percorria os caminhos da missão.»
O Papa louva também a espiritualidade teocêntrica de São Luís-Maria, quem tinha o “gosto de Deus e da Sua Verdade” (O amor da Sabedoria eterna, n.13), e não hesitava «em abrir aos mais humildes o mistério da Trindade, que inspira a sua oração e a sua reflexão sobre a Encarnação redentora, obra das Pessoas divinas». «A pessoa de Cristo domina o pensamento de Grignion de Montfort: “Jesus Cristo, nosso Salvador, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, deve ser o fim último de todas as nossas outras devoções” (Tratado da verdadeira devoção, n. 61). A Encarnação do Verbo é para ele realidade absolutamente central: “Ó Sabedoria eterna [...] adoro-Vos [...] no seio do vosso Pai durante a eternidade, e no seio virginal de Maria, vossa digna Mãe, no tempo da vossa Encarnação” (O amor da Sabedoria eterna, n. 223).»
Noutra ocasião, num escrito autobiográfico, com ocasião do 50º aniversario da sua ordenação sacerdotal, João Paulo II não hesita em afirmar que São Luís-Maria «é um teólogo de classe». De facto, pôs ao serviço da sua pluma todos os conhecimentos sólidos que tinha da Teologia dogmática y patrística juntamente com os ardores de um coração amante de Maria e Jesus.



São João Paulo II a respeito do “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”

O Papa, na sua carta com motivo do 50º aniversario da canonização de São Luís-Maria, diz-nos que «para conhecer a Sabedoria eterna, incriada e encarnada, Grignion de Montfort convidou constantemente a confiar na Santíssima Virgem Maria, tão inseparável de Jesus que «antes se separaria a luz do sol» (Verdadeira devoção, n. 63)», e ressalta a chamada do santo monfortino a «consagrar-se totalmente a Maria, para acolher a sua presença no mais íntimo da alma».


Foi exactamente isto que fez São João Paulo II, quem teve como livro de cabeceira e livro de bolso que o acompanhou toda a sua vida, o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís-Maria Grignion de Montfort. Foi do mesmo Tratado donde João Paulo II retirou o seu lema episcopal tal como o atesta na sua Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, 15: «Esta acção de Maria, totalmente fundada sobre a de Cristo e radicalmente subordinada a esta, «não impede minimamente a união imediata dos crentes com Cristo, antes a facilita»[1]. É o princípio luminoso expresso pelo Concílio Vaticano II, que provei com tanta força na minha vida, colocando-o na base do meu lema episcopal: Totus tuus.[2] Um lema, como é sabido, inspirado na doutrina de S.Luís Maria Grignion de Montfort, que assim explica o papel de Maria no processo de configuração a Cristo de cada um de nós: “Toda a nossa perfeição consiste em sermos configurados, unidos e consagrados a Jesus Cristo. Portanto, a mais perfeita de todas as devoções é incontestavelmente aquela que nos configura, une e consagra mais perfeitamente a Jesus Cristo. Ora, sendo Maria entre todas as criaturas a mais configurada a Jesus Cristo, daí se conclui que de todas as devoções, a que melhor consagra e configura uma alma a Nosso Senhor é a devoção a Maria, sua santa Mãe; e quanto mais uma alma for consagrada a Maria, tanto mais será a Jesus Cristo”.[3]»



São Luís-Maria, o “Tratado” e Satanás

São Luís escreveu o Tratado, provavelmente, no ano 1712, tendo o santo morrido a 28 de Abril de 1716. Os escritos de Luís-Maria foram cuidadosamente guardados  —quiçá num arquivo ou lugar reservado—, até que os tempos revolucionários do século XVIII francês obrigaram a mãos piedosas a fechá-los num cofre e a sepultá-los debaixo de terra à espera de tempos de ressurreição. Este momento chegou em 1842 —passados 130 anos—, e, como uma verdadeira graça sobrenatural, o livro do Tratado apareceu ao mundo em 1843.
Este acontecimento foi previsto à letra (revelação?, profecia?) pelo autor. Assim escreve São Luís no nº 114 do Tratado: «Prevejo que muitas bestas enraivecidas virão em fúria para rasgar com seus dentes diabólicos este pequeno escrito e aquele de quem o Espírito Santo se serviu para o compor. Ou pelo menos procurarão envolver este livrinho nas trevas e no silêncio duma arca, a fim de que não apareça. Atacarão mesmo e perseguirão aqueles que o lerem e puserem em prática. Mas, que importa? Tanto melhor! Esta visão anima-me e faz-me esperar um grande êxito, isto é, um grande esquadrão de bravos e valorosos soldados de Jesus e Maria, de ambos os sexos, que combaterão o mundo, o demónio e a natureza corrompida, nos tempos perigosos que mais do que nunca se aproximam! (cf. Mt 24, 15). “Aquele que lê, entenda! Quem puder compreender, compreenda!” (Mt 19, 12).»



O “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”

Continuo a citar a carta de São João Paulo II com ocasião do 50º aniversario da canonização de São Luís Maria: «No nosso tempo, em que a devoção mariana é viva mas nem sempre suficientemente esclarecida, seria bom reencontrar o fervor e o justo estilo do Padre de Montfort, para atribuir à Virgem o seu verdadeiro lugar e aprender a orar: «Ó Mãe de misericórdia, dai-me a graça de obter a verdadeira sabedoria de Deus e de me colocar por isso no número daqueles que amais, ensinais e conduzis [...] Ó Virgem fiel, tornai-me em todas as coisas um perfeito discípulo, imitador e escravo da Sabedoria encarnada, Jesus Cristo, vosso Filho» (O amor da Sabedoria eterna, n. 227)».
Nesta publicação, e em publicações posteriores, farei uma colectânea dos números do Tratado, que quero ressaltar, de acordo com aquilo que é a temática do Apelos de Nossa Senhora.



Introdução do “Tratado da Verdadeira Devoção”

1. Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por Ela que deve reinar no mundo.

5. Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo, cuja posse e conhecimento Ele reservou para si. Maria é a Mãe admirável do Filho o qual quis humilhá-la e escondê-la durante a vida para favorecer a sua humildade. Para este fim tratava-a pelo nome de “Mulher” (Jo 2, 4; 19, 26), como a uma estranha, embora no seu Coração a estimasse mais do que a todos os anjos e a todos os homens.
Maria é a fonte selada[4] e a esposa do Espírito Santo, onde só Ele tem entrada. Maria é o Santuário e o Repouso da Santíssima Trindade, onde Deus está mais magnífica e divinamente que em qualquer outro lugar do universo, sem exceptuar a sua morada acima dos querubins e serafins. Neste santuário nenhuma criatura, por mais pura que seja, pode entrar, a não ser por grande privilégio.

6. Digo com os santos: a divina Maria é o Paraíso Terrestre do novo Adão,[5] onde Ele encarnou por obra do Espírito Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis. É o grande, o divino mundo de Deus, onde há belezas e tesouros inefáveis. É a magnificência do Altíssimo, onde Ele escondeu, como em seu Seio, o seu Filho Único e n'Ele tudo o que há de mais excelente e precioso. Que grandes e misteriosas coisas fez o Deus omnipotente nesta admirável criatura, segundo Ela própria é forçada a dizer, a pesar da sua profunda humildade: “O poderoso fez em mim grandes coisas!” [Lc 1, 49]. O mundo não conhece estas maravilhas, porque é incapaz e indigno disso.

8. Todos os dias, de um extremo a outro da Terra, no mais alto dos céus, no mais profundo dos abismos, tudo proclama e publica a admirável Virgem Maria. Os nove coros dos anjos, os homens de ambos os sexos, idades, condições ou religiões, os bons e os maus, e até os mesmos demónios são forçados a chamá-la bem-aventurada, quer queiram, quer não; a isso os obriga a força da verdade. Como diz São Boaventura, todos os anjos lhe cantam no Céu incessantemente: “Santa, Santa, Santa Maria, Mãe de Deus e Virgem![6] E, todos os dias, lhe oferecem milhões de vezes a saudação angélica: “Ave, Maria...”, prostrando-se na sua presença e pedindo-lhe a mercê de os honrar com algumas das suas ordens. O próprio São Miguel –disse Santo Agostinho–, embora seja o príncipe de toda a corte celeste, é o mais diligente em lhe prestar toda espécie de homenagens e em fazer com que lhas tributem. Constantemente aguarda a honra de por Ela ser mandado em auxílio a alguns dos Seus servos.

10. Depois disto, forçoso é dizer com os santos: “De Maria numquam satis![7] Isto é, Maria não foi ainda suficientemente louvada e exaltada, honrada, amada e servida. Merece ainda muito maior louvor, respeito, amor e serviço.

12. Depois de tudo isto, temos de exclamar com o Apóstolo: “Nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração do homem compreendeu...” [1 Cor 2, 9] as belezas, as grandezas e a excelência de Maria, o mais sublime milagre da graça, da natureza e da glória. Se quereis compreender a Mãe, diz um santo, procurai compreender o Filho. Ela é uma digna Mãe de Deus: “Que toda a língua aqui emudeça!

13. Foi o meu coração que ditou o que acabo de escrever com particular alegria, a fim de mostrar como Maria Santíssima tem sido insuficientemente conhecida até agora e como é esta uma das razões por que Jesus Cristo não é conhecido como deve ser.
Se é certo que o conhecimento e o Reino de Jesus Cristo se estabelecerão no mundo, não será mais que uma consequência necessária do conhecimento e do Reino da Santíssima Virgem Maria. Ela deu Jesus Cristo ao mundo a primeira vez, e há de fazê-lo resplandecer também segunda vez.
Sobre este nº13 cito as palavras do Pp. Paulo VI, no Discurso na Clausura da Terceira Sessão do Concilio Ecuménico Vaticano II, (21.11.1964): «O conhecimento da verdadeira doutrina católica sobre Maria constituirá sempre uma chave para a exacta compreensão do mistério de Cristo e da Igreja»






Testemunhos de Papas e autoridades eclesiásticas sobre o “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, de São Luís-Maria Grignion de Montfort

São Pio X — «Recomendamos empenhadamente o admirável Tratado de Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem do Bem-aventurado Montfort, e a todos aqueles que o lerem concedemos jubilosamente a Bênção Apostólica»

Bento XV — «[São Luís] deixou-vos este livro escrito pela sua própria mão [...] de tão grande autoridade e de tão grande unção»

Pio XII — «[São Luís] conseguiu que a integridade da doutrina católica fosse salvaguardada e que a religião católica iluminasse não apenas os espíritos, mas que viesse a exercer uma influencia benfazeja sobre os costumes privados e públicos»

O Cardeal D. José Saraiva Martins, Perfeito para a Congregação para as Causas dos Santos (1998-2008), no seu prefacio à edição portuguesa (Março 2012), refere-se ao Tratado como «uma espécie de tratado doutrinal sobre algumas verdades centrais da nossa fé».

Recentemente a Congregação para o Culto Divino, com o motivo da decisão de inscrever a celebração do Santo de Montfort no Calendário Romano Geral, diz o seguinte: «Recolhendo no ensinamento mariano de São Luís Maria Grignion de Montfort, como de saudável fonte, as indicações para a vida espiritual, são formadas, nos seminários e nos noviciados de todo o mundo, gerações de sacerdotes, de homens e mulheres consagrados a Deus, e ainda de numerosíssimos fieis. Não poucos santos e bem-aventurados encontraram na espiritualidade monfortana a fonte na qual podem alimentar sua Devoção à Mãe de Cristo e da Igreja. Ainda hoje diversos movimentos e grupos, espalhados pelas diversas partes do mundo, fazem explícita referencia à doutrina de São Luís Maria Grignion de Montfort
















[1] Conc. Ecum. Vat. II, Const. Dogm. Lumen Gentium, 53
[2] Cf. Primeira Rádiomensagem Urbi et orbi (17 de Outubro de 1978): AAS 70 (1978)
[3] Tratado da verdadeira devoção a Maria, 120, em: Obras. Vol. I Escritos espirituais (Roma 1990), p. 430.

[4] «És jardim fechado, minha irmã, minha esposa, nascente fechada, fonte selada» (Cant 4, 12).
[5] Esta leitura de Gen 2, 8 em sentido mariano encontra-se também, por exemplo, em S. Efrém, S. Proclo, S. Ambrósio, S. João Damasceno, S. Leão Magno.
[6] Cf. São Boaventura, Psalt, majus, in Hymn. Ambros.
[7] Cf. Boudon, A Imaculada, prefácio, vol. 2, col. 589: «Se se disser que há demasiados livros sobre a devoção à Santíssima Virgem, os Santos Padres respondem que nunca se poderá louvá-la suficientemente; e São Bernardo, em especial, assegura que, ainda que todos os homens se esforçassem por falar dela, nunca se poderia dizer o bastante...»